O crescimento dá-nos a noção do fim. Entendemos perfeitamente que a nossa passagem por aqui é efémera. É tudo uma questão de tempo, anos, meses, segundos. Esse entendimento leva-nos a procurar tempo, o nosso tempo, escapes. Procuramos construir memórias, criar expectactivas, e sentir que a viagem não é em vão. Celebramos, lemos, ouvimos música, apreciamos sabores, e manipulamo-nos, também, de modo a sentir tudo com mais intensidade. Nem sempre é linear, nem sempre é como planeamos, como queremos ou imaginamos. Nem todo o tempo é agradável. A consciência de que o tempo existe leva-nos a contá-lo, e estamos sempre a olhar para um calendário, para as horas, para a posição do sol. Falta um mês para. Faltam 15 minutos para começar. Faltam dois anos para que. E não saímos daqui. O nosso tempo, esse sim, começa a faltar. Mas a expectativa do tempo que planeámos, faz-nos desejar e ansiar por algo palpável que efectivamente vai acontecer, e isso já é tanto... O marcar um ponto no calendário, olhar para o que está escrito, e pensar que vai ser tão especial.
(Michael Cunningham, in "As Horas")